Kant, a razão e o objetivo da vida.

By | 29 de janeiro de 2015

O filósofo iluminista Imanuel Kant deu ao mundo sua principal obra, e foco desta postagem, chamada “Crítica da Razão Pura”. Resumir uma obra extensa é um passo para se cometer injustiças. Porém, como não há falta de fãs ou discípulos de Kant por aí para defendê-lo, me dou ao direito, ao menos, de resumir e pinçar algumas partes e seus erros, pulando a verborragia filosófica que não é o pão com manteiga da maioria, e focando no interesse do blog.

Kant parte do princípio de que a maioria da filosofia até o seu tempo tem como base elementos que não podem, ou não deveriam, ser considerados válidos. O filósofo alemão descreve diversas facetas filosóficas, como a lógica transcendental e idealismo, chegando até a alma e a existência de Deus. Segundo consta, Kant queria provar que a “não existência” de Deus era impossível de ser provada. Mas, segundo ele, para se chegar a isso, seria preciso retirar qualquer tipo de “prova” da existência de Deus que, ao seu ver, não era baseada na razão. Num momento posterior, que o senhor Kant estrategicamente preferiu deixar para os outros, quando apenas a razão pura restasse, seria válido provar a existência de Deus. Ou a impossibilidade de se provar a “não existência” de Deus. É um argumento atraente para alguns, mas que já começa com problemas. É extremamente cínico retirar certos elementos do que ele chama de “razão” para depois dizer que é possível provar uma “não existência”. É bastante óbvio que a argumentação de Kant visava apenas excluir do diálogo conceitos cosmológicos de sua metafísica. Ou seja, resumir sua concepção de mundo e sua capacidade de entendê-los sem uma dinâmica universal ou que explique fora de nossa capacidade de percepção. Algo estritamente intuído. Intuição, para a filosofia, não é o mesmo que pressentir. Ao contrário, é o que você pode constatar fisicamente, como o chão sobre o qual você anda. É o contrárido do que você pode racionalizar, como dedução lógica. Em outras palavras, Kant, gostem os Kantianos ou não, facilitava a idéia do cientificismo moderno. Algo só seria válido se você pudesse observar, tocar e comprovar fisicamente.

É sempre bom lembrar que Sócrates nos ensinou a definir nossos termos antes de aplicá-los na experiência filosófica. Alguns dos grandes problemas da obra de Kant estão justamente na definição de seus termos e em alguns saltos lógicos que ele aplica sem cerimônia. As partes de refutação de argumentos filosóficos para a existência de Deus (ontológico, cosmológico etc), contém alguns dos maiores saltos lógicos que eu já vi. E em uma clara cutucada em Gottfried Leibniz, Kant separa totalmente a razão de causas primárias, deixando apenas espaço para o que seria a conclusão lógica de seu trabalho, o foco no que pode ser provado empiricamente. No final das contas, a definição de “razão” dada por Kant é não só por demais restrita, como errada. É uma arbitrariedade que não alcança seu resultado.

Não é à toa que, desde então, o entendimento geral tem sido de que apenas o que se pode provar empiricamente é válido, ou pior, existe. O ateísmo moderno, com sua ausência de grandes filósofos ou pensadores, tornou isso ainda mais rasteiro. Existem ateístas famosos, que publicam livros, viajam dando palestras contra as religiões, e participam de debates. Além de milhares de “guerreiros do teclado” por trás de cada comentários dos mesmos, ou vídeos pela internet que, supostamente, arrasam qualquer possibilidade de um teísta ser mais do que um idiota supersticioso. Lá se foi o tempo de filósofos e pensadores decentes, muitos deles, como Pascal, Leibniz e tantos outros, que eram também cientistas, matemáticos, engenheiros, artistas etc. Gente que não se perdia em tolices como definir razão como empirismo. Discussões mais elevadas, na minha opinião, acabaram depois que Frederick Copleston debateu com Bertrand Russell sobre a existência de Deus. Chato como Russell fosse, ao menos ele respeitava uma amplitude filosófica maior. Com raras exceções, hoje em dia vemos filósofos ou pensadores discutindo com qualquer sujeito pedante e que repete qualquer estultice com a intenção de confundir ou mesmo de definir o debate apenas dentro de uma área limitada, como Kant fez. Dentro dessas exigências, eles chegam a dizer que filosofia não serve para provar coisas como a existência de Deus etc. Sem se tocar, e como poderiam?, que essa é uma afirmação filosófica, e não algo que se possa provar empiricamente. O que, pela definição deles, deveria não servir para o debate. Mas não se deve esperar tanto do ateísta moderno. O ateísta moderno não sabe definir razão, e quando lê (o que é raro no geral) algo sobre filosofia, e que algo foi “intuído”, ele prontamente acha que isso é superstição baseada em sentimentos. É muito difícil discutir quando tal ignorância é usada para definir termos. Não é de se assustar que sua definição do que é racional seja tão raza. É o que acontece quando se aceita discutir sob os termos deles. Um grande filósofo respondeu sobre por que ele não debatia com ateístas. Ele respondeu que debateu uma vez na faculdade em que lecionava, mas desistiu de mais debates exatamente porque perdia todo o tempo tendo que definir os termos, e corrigir as mais simples definições que seu oponente usava sem o mínimo conhecimento.

Apenas se deve separar o ateu do ateísta, que é um ateu militante, em uma cruzada para banir a religião do mundo, imaginando que assim o mundo cairia num paraíso ateu, talvez como os do século XX, que mataram mais de 100 milhões de pessoas. Mas isso é outro assunto.

Infelizmente, o debate se tornou raso. A consequência moral imediata é o péssimo argumento que podemos definir assim:

– ateus podem ser tão bons, e levar vidas moralmente boas, quanto teístas.

– se ateus podem ser tão bons quanto teístas, religião é irrelevante.

conclusão: religião é irrelevante, já que você pode ser tão bom, ou melhor, quanto um teísta.

É um argumento atraente. Qual o problema desse argumento? São vários, na verdade. Assim como Sócrates, temos que definir nossos termos. Mas, podemos resumir e aceitar, hipoteticamente (!), que concordamos com as definições de “bom”, e “moralmente bom”. O problema que eu quero focar aqui é com a afirmação de que religião é irrelevante porque você pode ser bom não acreditando em Deus. Ora, essa conclusão só seria válida se o objetivo da religião fosse apenas fazer a pessoa ser boa! Aceitar essa conclusão é aceitar uma premissa mentirosa. Ou profundamente ignorante.

Em primeiro lugar, isso é absoluta ignorância sobre o que é religião; o que é Deus; e mesmo admitir que você sequer leu sobre alguma religião. Nesse caso, é admitir que você ignora aquilo que tenta refutar. Em segundo lugar, é confundir causa com o efeito. Não conheço nenhuma religião que tenha por objetivo final tornar alguém bom. Vejo seitas, práticas que misturam gnose com pós-modernismo, paganismo, meditação transcendental, ecologia, entre outras coisas, que visam apenas você “se sentir bem” e, ao contrário das religiões, passar a viver como quiser, desde que entrando em contato com a natureza e seu “eu interior”, aceitando qualquer besteira que você faz ou fala com o ideal de viver sem “culpa”. Isso não é religião! Nenhuma! Mas tratarei apenas de uma, ainda que tenha objetivo parecido com outras.

O Cristianismo tem por objetivo a salvação do homem! O Cristianismo nos ensina que Deus, por amor, deu ao homem o livre-arbítrio. Exatamente porque amor obrigado não é amor. Deus queria a comunhão com seres de sua criação que tivessem a possibilidade de não amá-lo. Tendo escolhido o pecado, o homem introduz a morte ao mundo, e começa a se degradar mais e mais. – Algo que, pessoalmente, me surpreende quando não é evidente para os outros com a simples observação de nossa sociedade. – Daí por diante, por amor, Deus nos mostra que, exatamente pelas nossas escolhas, e porque vamos sempre repetir erros, não há nada que possamos fazer que possa nos livrar do pecado, de nossas más ações, e então, como diriam os filósofos Robert Plant e Jimmy Page, comprar nossa escada para o céu. Isso é impossível. Ou seja, não é o suficiente que o homem seja bom. A salvação vem de Deus, por sua Graça. O que Deus nos deu, por amor, foi um sacrifício provisional, na pessoa de Jesus Cristo, a segunda pessoa da Trindade. De sua ressurreição em diante, a morte não tem mais a palavra final. É preciso buscar a salvação e entrar em comunhão com Deus.

Repare que eu não disse que é inútil ser bom. Eu disse que não é suficiente! E disse que é necessário buscar a salvação e entrar em comunhão com Deus. Para isso, a consequência é lutar para ser bom. Para servir. Para acabar com as injustiças. Então o cristão só é bom porque espera receber algo? Não, mas porque entendeu que isso faz parte do amor. Amar de verdade é amar seu próximo como se ele fosse Deus. Nas palavras de Madre Teresa de Calcutá, porque ele “é” Deus! Porque amar é sacrifício. E Deus? “Deus caritas est”. Deus é amor. Como a própria palavra em latim nos mostra, caridade é amor.

Em suma, o objetivo do homem é a sua salvação. E ser bom é um efeito, e não uma causa. Mas o ateísta pode protestar e dizer que, em termos práticos, o homem pode ser tão bom, ou melhor, sem Deus, de qualquer forma. Infelizmente, não pode! Você pode se, mesmo em seu suposto ateísmo, você estiver racionalizando de forma cristã (ou religiosa). Não existe possibilidade, para quem não vive a experiência religiosa, de não cair na armadilha da frieza do cálculo do valor da vida. Ou não cair no relativismo. Não racionalizar a morte de crianças ou idosos caso fatores práticos forem apresentados e lhe pareçam benéficos. Para você ou para essa coisa abstrata que é “a humanidade”. Não há a possibilidade de um absoluto moral sem Deus. Sempre acabará caindo no cálculo frio, na relação do que “é melhor para a maioria” etc.

Você talvez viva uma vida melhor que muitos religiosos. Mas, no geral, é impossível para o homem, como sociedade, viver bem assim sem Deus, a única base moral imutável possível. E nosso objetivo final. Nossa salvação!

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista!

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