O legado do Código Da Vinci.

By | 19 de janeiro de 2015

O livro “O Código Da Vinci” foi daqueles que não só fez sucesso, como foi motivo de muita prosa e discussão. Não só em mesas de bar, mas, infelizmente, também na imprensa, escoando até mesmo para livros, documentários etc. Presenciei dezenas vezes a velha situação de alguém falando algo como: “não sei se isso é verdade, mas é claro que alguma coisa ruim a Igreja fez”, comentando sobre alguma parte do livro. E tome acusação bizarra e sem sentido. Claro, quando eu tentava defender a Igreja, ou mesmo a história, a lógica, ou a noção do ridículo, o assunto morria. Muitas vezes sob a frase: “mas é só um livro”. Em primeiro lugar, enquanto ele municiava qualquer um a falar o que quisesse contra a Igreja, era certamente mais que isso. Em segundo lugar, e mais importante, essa idéia de algo assim ser “só um livro” é uma das maiores idiotices que se pode dizer. Afinal, muitos desse tipo “só um livro” já mudaram a história. E outros tantos criaram mitos que circulam livremente por aí como se fossem verdade. “Só um livro” não é só bobagem, mas um desserviço à história e a todos os livros e autores que mudaram o mundo. Para o bem ou para o mal.

Num plano menor, Dan Brown, o autor do livro, capitalizou em cima da suposição de que ele escreveu algo com um fundo de verdade. Munido de declarações de autores sensacionalistas sem nenhum comprometimento com a história, ou tendo ao seu lado historiadores gnósticos, o autor passou a dizer que “se tornou um crente da história que escreveu”, quer dizer, ele diz acreditar que seu livro é uma realidade histórica, e que ele tem base pra dizer. Isso pode ser conferido até nas entrevistas para o filme baseado em seu livro. Ao fazer isso, ele libera qualquer um a tratar dos seus mitos como mais do que “apenas um livro”. Se ele diz que é fato, então tem que aceitar também o escrutínio.

A primeira coisa que o homem moderno tende a pensar é em política. Tudo é política e jogo de poder. Além de ser uma idéia fútil e perigosa, esse não é o foco deste blog, nem deste artigo. Falarei apenas sobre os erros históricos e teológicos apresentados no livro, ainda que a motivação de Dan Brown possa ser também política.

A “teologia” do livro descreve como Cristo teria se casado com Maria Madalena, e que seria ela, na verdade, o “Santo Graal”. Quer dizer, o Graal não seria o cálice usado por Cristo para celebrar a última ceia, e que conteve seu sangue, o sangue da nova e eterna aliança com os homens. Mas sim, Maria Madalena. Ela teria dado a luz a uma filha de Cristo. Aí a coisa fica ainda mais embolada. Segundo o autor, através de seus personagens, você fica sabendo que isso seria um problema, já que uma filha não seria bem vista por um suposto machismo. E que essa linhagem foi escondida para protegê-la da malvada Igreja Católica, que queria preservar um mito, seu poder etc. O que está errado nisso?

Em primeiro lugar, não existe nenhuma evidência sobre isso. No mais, existem milhares de evidências sobre o Jesus histórico. Não só da Igreja, como as fontes não-cristãs, os escritores romanos, como Tacitus etc. Depois, temos que então verificar as “evidências” dele. Essas teorias não são novidade. Elas vêm principalmente dos evangelhos gnósticos. O que são esses evangelhos? Gnose (gnosis) significa “conhecimento” em grego. Desde antes de Cristo, e baseados primeiramente em um neo-platonismo, e depois numa mistura de difícil separação e classificação, vários grupos criaram teorias baseadas na salvação pelo conhecimento. Na verdade, sempre em um conhecimento secreto, que seria passado entre os escolhidos desses grupos. A gnose sempre foi uma colcha de retalhos, nunca uma coisa só, tampouco coesa. Gnósticos sempre foram sincretistas, quer dizer, a cada nova geração, eles identificavam pessoas ou idéias notáveis e incluíam em suas crenças. Nem sempre de forma clara ou lógica.

Basicamente, os gnósticos acreditam que Deus está distante, alheio ao universo, e o deus que os homens da terra acreditam é um demiurgo, uma emanação entre outras. Em geral, representadas por luzes coloridas e coisas assim. Essas emanações, em sua maioria, não seriam boas. Elas teriam criado o universo e tudo nele contido. Logo, matéria e tudo que nós entendemos não é bom por natureza, ao contrário do que o cristianismo acredita. As receitas para a salvação e modo de vida variam. O constante é a salvação ser possível apenas com algum conhecimento especial, transmitido apenas por pessoas escolhidas em um ritual próprio. O que sempre dá uma sensação de ser especial aos que são ‘escolhidos’ ou têm a ‘sorte’ de participar de um grupo desses.

No caminho desse sincretismo, temos grupos gnósticos que até hoje identificam figuras modernas, como um estadista famoso, ou um homem santo, como sendo encarnações de “mestres” e, por uma incrível coincidência, parte de sua seita, e não das outras. Jesus Cristo, para pessoas assim, foi e é irresistível como parte de sua teoria e prática espiritual. Não é de se estranhar que a gnose já em seus primórdios tenha se adaptado, ainda que de formas diferentes, para incluir Jesus. Os gnósticos, suas seitas antigas e modernas, merecem um post próprio depois. Pois bem, como consequência, vimos grupos variados escrevendo suas versões de algum “evangelho”. Desses evangelhos gnósticos é que saíram tantas bobagens como as usadas por Dan Brown.

Voltando ao livro. Maria Madalena e sua suposta filha corriam perigo nas mãos dos cristãos? Isso é um contrassenso. Uma das coisas que se deve corrigir das lendas e do “todo mundo sabe” é a mentira de que o cristianismo é, e era, muito machista. Embora toda, ou quase toda, sociedade tenha sido patriarcal, o cristianismo já começa quebrando um paradigma. As mulheres no mundo judáico da época eram, sem meias palavras, cidadãs de segunda classe. Seu testemunho não valia o mesmo que o de um homem, e nem eram permitidas ao lado de homens nas sinagogas. Porém, Jesus conversava e tratava mulheres como iguais, muitas vezes para o espanto de muitos. São Paulo (Gl 3,28) diz claramente que Cristo ensinou que não há diferença entre homem e mulher. Na prática, o cristianismo correu um dos seus maiores riscos exatamente por afirmar que as primeiras testemunhas da ressurreição de Cristo foram mulheres. Maria Madalena, inclusive. Se você fosse inventar o cristianismo, e ele dependesse da ressurreição, certamente você não colocaria as mulheres como testemunhas-chave do seu caso. Mas como era a verdade, e parte da história sagrada, os cristãos jamais retiraram as mulheres de sua posição de destaque, mesmo sob a chacota e crítica unânime da época. É estranho que algumas pessoas digam que esses evangelhos gnósticos defendam as mulheres contra a suposta tirania machista da Igreja da época. São nesses evangelhos gnósticos que as mulheres são tratadas como lixo. Neles, frequentemente elas são vistas como indignas, mesmo pelos apóstolos ou o “cristo gnóstico”. Ao ponto de, ao contrário do que é demonstrado nos evangelhos cristãos (como dito acima), o cristo dos evangelhos gnósticos diz que transformaria Maria Madalena em homem para que ela pudesse participar da salvação. Diga-se de passagem, alguns grupos gnósticos faziam com que suas mulheres passassem por severos exercícios de jejum e meditação, até que elas deixassem de menstruar e seus seios murchassem. Exatamente para ficarem parecidas com homens. É esse o grupo que dizem tentar libertar as mulheres do cristianismo? Cristo eleva Maria Madalena, e os cristãos fazem dela testemunha central do pilar de sua crença, a ressurreição, e depois a canonizam! Já os gnósticos pensavam nela como um lixo a ser transformado em homem para ter valor. A noção de libertação de Dan Brown e quem mais espalha isso me parece bastante problemática.

Outro exemplo de machismo e violência cristã no livro é a “caça às bruxas”. Pelos cristãos, segundo o livro, isso teria sido promovido pela Inquisição, baseada em uma obra chamada “Malleus Maleficarum” (O Martelo das Bruxas). O problema é que isso é uma lenda. Existiu um livro chamado Malleus Maleficarum, que foi escrito por um velho padre já louco e paranóico, que jamais conseguiu aprovação eclesiástica para sua obra e as práticas sugeridas. O sujeito foi afastado do púlpito e depois isolado completamente. Seu livro jamais foi usado como base para nada da Igreja. Foi mesmo condenado oficialmente após sua ‘publicação’. Por publicação se deve entender meia-dúzia de cópias que ninguém quis. De fato, apenas um sujeito tinha uma cópia e procurou um bispo preocupado com o que leu. Foi o tal bispo que afastou o autor. O livro só foi revisto séculos depois, e essa lenda negra foi criada sobre o livro e seu uso. Aliás, a Inquisição tinha em suas regras um aviso contra o uso de tal livro. É um assunto suficiente para sua própria postagem no futuro.

No livro de Dan Brown, a busca é pelo túmulo de Maria Madalena. Rezar próximo a esse túmulo sagrado, seria, segundo o livro, a maneira de libertar o mundo da opressão da Igreja. Mas durante a discussão ‘teológica’ do livro, os personagens principais declaram que a divindade de Cristo é uma invenção. O que é um tiro no pé sobre o tema central do livro. Ora, teologia de lado, se eles acreditam que Cristo não era divino, qual o valor místico de sua suposta esposa, que teria carregado “a herdeira de Cristo”? É uma falha na própria lógica confusa do autor.

O livro se concentra em sua oposição à Opus Dei. Segundo eles, uma ordem ultra-conservadora faminta por poder, e que tem representantes “infiltrados” em todos os escalões da Igreja e do mundo secular. Seus membros, segundo o livro, participam de violentos rituais de auto-flagelação, descritos de forma sangrenta e sensacionalista. Mas, o que é de verdade a Opus Dei? A “Obra de Deus” é uma prelatura pessoal da Igreja. Esse é um tipo único de classificação eclesiástica, criada para atender às diferenças inerentes da Obra. Na prática, não difere em nada para a Igreja com qualquer ordem conhecida, seja em termos ‘políticos’ ou práticos. A grande diferença é que é uma ordem voltada para o leigo, e essa é a sua beleza. É uma ordem que faz com que o leigo participe mais diretamente da Igreja, enquanto busca uma vida de santidade baseada em atos do dia-a-dia. Quer dizer, é mostrar ao leigo que ele pode ser, para espanto de alguns, um advogado, ou político, e ainda assim, um santo. Uma pequena parte da Obra, menos de 20%, decide viver sua vida em centros especiais. A maioria, cerca de 70%, vive como qualquer leigo. Aliás, ao contrário do que mostra o filme, não há monges na Opus Dei. Exatamente porque não é uma ordem monástica, mas sim voltada para o leigo.

A mortificação, no século XXI, sempre será algo polêmico. Mas devemos entender que a mortificação pode ser algo simples, como um jejum; deixar de almoçar um dia; tomar banho frio quando, em geral, se aqueceria a água etc. O provável incômodo é causado para que a pessoa seja lembrada do sofrimento de Cristo, e com isso possa se ajudar a ter uma vida de oração melhor. Ou com isso se treinar para não cair em tentações comuns à sua vida. Na enorme maioria dos casos de prática de mortificação é apenas isso. O cilício, a rede que se amarra à perna (podem ser outros formatos, como um tipo de “camisa”), e tão focado no filme, não é um instrumento de tortura. Mas um instrumento feito exatamente para ser algo diferente no seu corpo, para lhe ajudar a focar, lembrar, e com isso fortalecer sua vontade de fazer algo a mais no seu dia. A versão com pontas de ferro cortantes não é usada. Em geral, é como um cinto de couro. O cilício não é usado sempre, exatamente para que seja algo estranho. Seu uso é discreto. Pode ser surpresa para muitos, mas algumas figuras inesperadas para o grande público já usaram o cilício alguma vez. Existem testemunhos de que Madre Teresa, Papa São João Paulo II, Beato Paulo VI, São Thomas More, e muitos outros, usaram o cilício em algum momento. Nada de sangue e horror, mas prática salutar.

E o “Priorado de Sião”, o grupo cuja existência é especificamente dita no prefácio do livro como sendo historicamente verdade? Nunca existiu! Algumas sociedades, mas do século XX, se chamaram assim. A tal sociedade antiga, encarregada de proteger a linhagem descrita como “de Cristo”? Foi apenas uma invenção de dois sujeitos que queriam construir mais uma seita com eles no centro, ou pregar uma peça histórica e ganhar fama com isso. Um deles chegou a falsificar pergaminhos e outros textos, que depois foram reconhecidos como falsificação. Aliás, admitida por ele em seguida, ainda na segunda metade do século XX. A lenda vinha do interesse dos dois por um castelo na França, que recebe visitantes pelos mitos de tesouros secretos lá enterrados. Diz a lenda que um padre teria descoberto tais tesouros no século XIX. O tesouro perdido é lenda. O tal padre existiu, mas seu nome foi usado em vários mitos. O sobrenome do padre é usado no livro: Saunière.

Se fosse apenas mais uma história de detetive, escrever este artigo seria desnecessário. Mas o legado do livro é uma trilha de mentiras. É um legado de mais repetições de mentiras que são os “fatos que todo mundo sabe”. São publicações e aproveitadores promovendo a gnose e seus absurdos. Todos sendo ouvidos como inovadores ou perseguidos, enquanto a Igreja se protege sob a boa vontade de esperar que as pessoas pesquisem e descubram os fatos. Como sempre, a Igreja depende de quem quiser publicar algo em prol da verdade. Olhe pelo lado bom. Se você escolhesse o Islã para suas fantasias, distorções, acusações e mentiras, você acabaria morto. Mas contra a Igreja, aparentemente, vale tudo. Além de ser muito lucrativo para alguns. Só não fique tão chateado quando suas mentiras forem refutadas e você tiver que estudar para saber a verdade. É desagradável para alguns. É mais fácil repetir as mentiras de sempre. Afinal, se você repetir que “a Igreja malvada certamente fez algo ruim”, é capaz até você ganhar prêmios, espaço em jornal, televisão e muito mais. Só não é honesto. E é péssimo para a sua alma!

Em Cristo, entregue à proteção da Virgem Maria,

um Papista!

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